27 de janeiro de 2015

Ao Cair da Noite: Capítulo I


Quando um ser humano se vê frente à frente com a morte, o fim de sua existência atual, reage de inúmeras formas distintas. Apesar de aparentemente repetitivas, são totalmente imprevisíveis. Alguns choram, outros riem, outros expressam absoluta indiferença. E há os que correm. Uma necessidade desesperada de fuga, de escape, um afastamento do incontestável.


Malditos sejam esses que correm.


Passava da meia-noite, enquanto Charlotte se embrenhava pelos corredores altos do depósito de contêineres. O porto do Rio de Janeiro, apesar das últimas mentiras sobre renovação, era uma engrenagem obsoleta baseada em burocracia desnecessária e pura corrupção, onde carregamentos ficavam meses sem liberação devido ao amontoado de documentos pendentes de aprovação. Sendo um usuário do serviço portuário carioca, você tinha duas opções: pagar o adicional implícito ou lidar com o prejuízo. Independentemente da falta de capacidade carioca para negócios autênticos, Charlotte não corria despropositalmente. Havia outro alguém ali, correndo também. Correndo dela.


Num grunhido de frustração, a mulher mudou de curso em direção a parede de contêineres, com um impulso atirando-se contra ela. Cravou seus dedos fundo no muro de metal e começou a escalar com demasiada facilidade, deixando para pequenas perfurações irreconhecíveis na chuva. Cinco de cada lado. Na parede de metal condensado.


Ao alcançar o topo da pilha de contêineres, um relâmpago cruzou o céu chuvoso iluminando a silhueta da figura ameaçadora a olhar do alto. Visualmente sem destaque, ela vestia-se como qualquer jovem nos seus vinte e poucos anos. Ou assim, ela pensava. Botas de couro com cano longo; calça jeans justas e rasgadas, alguns rasgos por estilo outros por inconsequência; uma regata branca e uma jaqueta de couro vermelho. Uma jaqueta bem velha e usada, mas ainda indispensável. Sem ela, nada faria sentido. Charlotte estaria incompleta.

Não era possível enxergar nada no pátio mal iluminado do depósito. O fustigar da chuva também fez sua parte para atrapalhar. Charlotte desceu um joelho no chão, fechou os olhos e se concentrou nos sons. O rugido das gotas de chuva castigava o metal e o cimento, a terra e o ar, era um grito ensurdecedor, impossível de ser calado. Aos poucos, os ouvidos da mulher conseguem silenciar o estrépito da natureza, somente o suficiente pra ouvir aquilo que procurava. Duas batidas rítmicas, aceleradas a um crescendo de terror, o mais antigo de todos: o medo da morte.


Agilmente, ela levanta e dispara. Corre por cima das pilhas e mais pilhas de carregamentos atrasados, seus passos firmes e seguros percorrendo as superfícies de metal sem demonstrar o mais leve indício de que seus olhos ainda permaneciam fechados. A mulher já não ouvia nada além das batidas. O grito impossível de silenciar, fora reduzido à sussurro. Aquela era uma mulher que vivia para desafiar as chances. Desafiar o impossível. Nada no mundo importava além das batidas. E elas estavam chegando cada vez mais perto.


Charlotte parou de correr. As batidas aceleram. Elas sabem o que vai acontecer em seguida. A mulher abre os olhos. Ela está parada no topo da última pilha de contêineres do depósito. À sua frente ergue-se um pequeno prédio pertencente à equipe de administração do depósito e a porta da frente acabara de ser fechada. Haviam outras batidas dentro do prédio, mas era fácil reconhecer a batida que ela procurava.  Era a mais descontrolada. Não importava muito, todas iriam terminar do mesmo jeito. Em silêncio.



            Charlotte saltou agilmente para o chão, flexionando os joelhos ao cair. Ergueu-se atirando os cabelos molhados para trás de forma a tirá-los da frente do rosto. Ela odiava quando eles faziam isso. A cascata de fios molhados poderia ser passar por negra naquela noite chuvosa, mas, na verdade, eram do mais intenso rubro que os olhos podem ver. Ela caminha em direção ao prédio, as batidas todas juntas agora mas um ainda se destacava. Gentilmente, seus passos se tornaram aceleradas, se elevando a uma corrida. O prédio estava na sua frente. Viu uma janela e pulou. Vidros se estilhaçaram e ela entrou onde as batidas estavam.

Charlotte atravessou a janela como uma esfera de demolição. O gerente noturno sentada à mesa defronte a janela, foi imediatamente imprensado contra a parede oposta. Charlotte agarrou o homem pelo peito e atirou-o contra seu assistente, ainda assustado sob o portal de entrada da sala, no outro lado do cômodo. O corpo é lançado com velocidade letal, atingindo o assistente,  transformando-o em cadáver antes mesmo de que ambos colidissem contra o outro cômodo. Havia um segurança ainda. Ele sacou sua arma. Apontou contra ela e disparou.

Inútil.




            São necessários dois disparos até que os dedos dela encontrem o pescoço do atirador. Ela desviou dos disparos com facilidade e assim que teve contato com a pele do homem, não pensou, apenas agiu. Os músculos de seu antebraço contraíram por debaixo do couro vermelho da jaqueta, gerando o ímpeto necessário para sua mão direita estraçalhar a garganta do segurança. Apesar de tudo, ele havia sido o único a expressar mínima resistência ao que iria acontecer. No entanto, inútil.




            Charlotte deixa o cadáver inerte descer ao carpete que cobria o chão do primeiro andar do prédio da administração. Ela se encontrava no mais próximo de um refeitório que aquele estabelecimento podia oferecer, agora com as mesas e cadeiras viradas, destruídas ou ambos. Lentamente, ela girou nos calcanhares e encarou as batidas que tanto procurava.




            Um homem a encarou de volta. Seus olhos apresentavam um negrume fosco agora. De medo. O terno preto de alta costura apresentava um estado trágico após a corrida desenfreada pela chuva. O nó da gravata ainda fechava o colarinho, apesar desta ter sido rasgada no caminho. Era uma visão cômica e roubou um sorriso dos lábios dela. Lábios vermelhos, atraentes, homicidas. Os cabelos dele começaram a demonstrar envelhecimento nas laterais o que daria um belo destaque a sua cabeleira abastada penteada em forma de topete, caso o homem também não sofresse de calvície. Para resumir, era a patética visão de um homem que passou a vida atrás do dinheiro e acabava de descobrir que não poderia mais gastá-lo.




            Ela caminhou lentamente até o homem. Ele não correu. Não mais. Ela levou uma de suas mãos pelo braço dele, subindo numa carícia gentil, enquanto a outra mão agarrou-o carinhosamente pela nuca. Ela puxou-o contra si e o beijou. Lábios vermelhos. Homicidas. O rosto do homem passou por uma rápida sucessão de sentimentos. Primeiro o medo ao toque da mulher, depois a confusão pelo que se seguiu ao toque e por fim, o prazer. Nunca em sua vida de riquezas havia beijado lábios como aqueles. Lábios vermelhos e atraentes, seguros e serenos, macios e formosos. Homicidas.




            Num movimento súbito, Charlotte agarrou a cabeça do homem com ambas as mãos e torceu com força, virando-a para trás. O cadáver do homem caiu de joelhos e tombou no chão, com a cabeça morbidamente virada para o teto. Charlotte olhou-o longamente antes de sair, mantinha um dos braços cruzados sobre a barriga, com a outra mão tocando o rosto. Dedos sobre os lábios. Ela lembrava um beijo de antes, muito antes, que nunca viria a ser de novo. Essa era uma lembrança recorrente em sua cabeça, como o ritual que era.  Mas algo naquela noite estava diferente, naquela noite esse beijo da memória não parecia tão distante. Não parecia mais tão impossível. Um sorriso travesso cruzou seu semblante com a perspectiva de ir vê-lo. Se encaminhou até a porta ainda sorrindo. Abriu a porta com o sorriso. Seu último.




            Uma mão agarrou sua cabeça e a puxou de dentro do prédio. Ela foi atirada por todo o pátio, acertando a lateral de uma das pilhas de contêineres. O impacto foi tamanho que deformou o aço compactado formando um apoio para segurar o corpo da mulher desfalecida. O metal se deformou ainda mais quando ele se jogou contra Charlotte. Era um homem grande, com ombros largos que haviam acabado de estilhaçar as costelas dela no impacto.  Ele agarrou uma de suas pernas, puxou-a com força do buraco na parede e como se fossem um trapo, bateu-a contra outra pilha. O novo impacto trouxe ela de volta a consciência, mas ela nada pôde fazer contra a brutalidade de seu atacante. Ele agarrou-a pelo pescoço e jogou seu punho monstruoso contra o abdômen dela. Subiu o braço e desceu o punho de novo. E de novo. E de novo. Sentindo uma nova fratura se formar a cada novo golpe. Agarrou ela com a duas mãos e jogou contra outra pilha de contêineres. Foram necessários apenas alguns minutos para que a sessão do depósito fosse completamente destruída. Pilhas e mais pilhas de caixas de aço tornando-se esculturas deformadas de metal e sangue. Por fim, ele arrastou-a até o centro do pátio desocupado por onde ela havia corrido alguns minutos atrás e a largou.




            Seu corpo esbelto e ágil era um destroço. Um misto de ossos quebrados e músculos rasgados, sangue e dor. O belo rosto estava coberto por uma miríade de hematomas variando do vermelho ao roxo, com um dos olhos já fechado pelo inchaço. Seus lindos lábios vermelhos engolfados pelo sangue. Ela sabia. Sabia que o destino havia finalmente vindo para lhe cobrar o que era devido.

Forçou o abdômen a se levantar do chão, apoiou-se no braço menos fraturado e pressionou o fêmur fragilizado até conseguir se levantar. Com o olho que sobrava, encarou seu atacante. Um gigante de 2 m, braços largos e duros, apertados dentro de um paletó preto. Suas mãos se ocupavam com uma arma. Uma pistola modificada, do tipo pederneira, trazida à modernidade com um anexo para pente de munição. Emanava um odor odioso de madeira, aço, chumbo e prata.




            O gigante ergueu a pistola. Charlotte, segurando um dos braços, decidiu que não morreria vulnerável como as presas que sempre caçou. Não, não assim. Ele não gostaria disso. O gigante puxou o cão da pistola com um clique, engatilhando-a. Charlotte levou uma mão aos lábios. O toque lhe causou uma ardência nos cortes recém adquiridos. Estava pensando no beijo. Naquele beijo. O sorriso voltou ao seu rosto. Engraçado pensar em como ela podia sempre se lembrar daquele maldito beijo. Daquele maldito homem. Desgraçado egoísta. Ela disse pra ele correr, ele não correu. Ela avisou pra ele sair, ele ficou. Então o tempo dela terminou. Ela não se despediu, ele não entendeu. Ele queria que ela ficasse. Ela jamais poderia. Apesar de ser contra o bom senso, ela queria que ele a seguisse. Ele não seguiu. Sempre tomava a decisão certa, o desgraçado. E agora era ali que tudo ia acabar. Em seu último momento, ela nunca quis tanto aquele beijo novamente.

O gigante mirou o coração dela e puxou o gatilho.

Por Roberto Marcos

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente sua opinião, crítica, sugestão ou whatever!
Nós do Peixe com Sales agradecemos!!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...