3 de fevereiro de 2015

Ao Cair da Noite: Capítulo II


Nada consegue passar uma sensação de que “F*deu sério” com tanta eficiência quanto um soco na cara.

Nada.

Aquele que fornece o soco, geralmente sofre uma leve pontada dolorida no punho, consequência direta do choque entre ossos mão-rosto. No entanto, para este “fornecedor” em específico, a fisgada no punho era banal, um mero aquecimento para os socos que viriam em seguida. Assim era a vida de um lutador de MMA amador. Uma das mãos segurava o colarinho da blusa e a outra, fechada num punho, recuou tomando impulso para o segundo soco.

Apesar da cena patética, o dono do colarinho da blusa que o lutador estava segurando mantinha uma postura inabalável. Era jovem, mas vestia-se incoerentemente com a sua geração. O lutador estava simples, jeans e camiseta, como qualquer homem nos seus 20 e poucos anos. Agora, o outro rapaz era uma discrepância ambulante. Mesmo estando num bar carioca, em um porão abafado de uma ruela qualquer, numa noite quente e úmida de janeiro, ele se vestia desnecessariamente formal: sapatos pretos, jeans escuras, uma blusão social vermelho-escura com mangas dobradas nos antebraços. O lutador era bem alto, dois metros e quatorze de altura, já o bem-vestido tinha míseros 1,90m. Apenas.

O lutador estava acostumado com aquele tipo de coisa. Todas as noites ele saia em busca de um bom rabo-de-saia que pudesse livrar sua mente da vida detestável que levava. Elas não precisavam raciocinar, apenas entender que a noite terminaria na cama dele. Haviam noites boas e noite ruins, as melhores terminavam rápido, elas o viam chegando e praticamente lhe abriam as pernas, facilitando todo o processo, deixando-o satisfeito por não ter que se esforçar muito. Mas apareciam algumas vagabundas que perturbavam a paciência, falavam todo tipo de besteiras sobre ele ser grosseiro, abusado, vulgar. Não sabiam o lugar delas.

A felizarda da noite parecia ser uma dessas. Loiraça com vestido tomara-que-caia branco, cantora de palco, a improvisar um jazz o melhor que podia com aquele pianista bêbado e viciado, a três dias em abstinência. Ele precisava do pó e estava propositalmente atrapalhando-a, acelerando o ritmo como se o fim da música pudesse lhe dar o alívio que desejava com tanto desespero. Pobre mulher. Anos de estudo na música, desenvolvendo suas habilidades, sangue e suor em troca da aptidão com que exercia seu ofício para terminar naquele buraco de ratos. E pra piorar, um brutamontes estava olhando-a com vontade desde que chegou. Mais um idiota achando que era mais que uma massa acéfala de músculos e manipulação hormonal.

- Ei, princesa. Oi, você aí. É, você mesmo, gostosinha. Porque você não senta aqui comigo, ein? O som nem tá tão bom assim. Solta esse microfone aí, senta aqui no meu colo e talvez eu deixe você cantar no meu mais tarde.

A voz da cantora morreu. Lentamente, o pianista percebeu o que estava se desenrolando e diminui o ritmo do som, até parar. Ela encarava o imbecil diretamente. Não aguentava mais. O dia já estava sendo péssimo e ela não iria mais virar a outra face. Primeiro, sua manhã já começou carinhosamente bem quando ao chegar no estúdio de dança onde dava aulas de jazz, descobriu que havia sido substituída por uma velha gorda qualquer, amiga da dona do estúdio e recém aposentada de uma carreira gloriosa da qual ninguém ouvira depois de uma última apresentação enfiada no buraco mais escondido no fim da Broadway. A diretora do estúdio havia sido curta e grossa, entregando um pedaço de papel em nome de “Débora” com um valor bem menor que esperado, chamando aquilo de pagamento do mês. Ela não pôde fazer nada além se desvencilhar de todo aquele carinho falso e sair de lá para nunca voltar. Chegando na faculdade, atrasada graças ao mal funcionamento cotidiano do transporte público carioca, teve o privilégio de flagrar seu namorado agarrado com uma calouras de intercâmbio. Uma colombiana qualquer, clone maldita da Shakira.
Pra ocupar a mente e o tempo, evitando ficar em casa sem fazer nada além de chorar, aceitou um bico naquela imundice de bar/restaurante e ainda tinha que suportar um imbecil falando merdas? Sem chance.

- Amigão, me desculpa, mas com todos esses músculos, não sei se seu microfone liga mais.

Apesar de mais da metade do bar estar preenchida por cadeiras vazias, as poucas pessoas no recinto não contiveram os risos. Satisfeita, Débora desceu do palco, indo se sentar a uma mesa na extremidade mais mal iluminada do bar, acompanhada apenas pelo seu mau humor. Puxou o celular e rapidamente começou a interagir nas redes sociais, não enxergou quando o sorriso arrogante no rosto do lutador evaporou em meio as risadas. Ele ficou irado. Vadia metida. Ela precisava de uma lição e na frente daquele bar seria o melhor, pra que nunca esquecesse. Derrubou o banco que estava sentado ao sair do balcão do bar, avançando em direção à ela, punhos fechados, pronto para mostrar que uma mulher jamais deveria desrespeitar um homem.

Ao passar pelo fim do balcão do bar, uma mão se interpôs entre ele e sua desavença. Olhou para o rapaz que bloqueava seu caminho e não acreditou que aquele cara fazendo tipo ricaço tinha a audácia para se meter nos seus assuntos. Ele continuava sentado, olhando para frente, o corpo meio virado com a palma aberta contra o peito do lutador. Lentamente, o rapaz olhou pra ele e ainda mais lentamente, balançou a cabeça negativamente. Essa foi a gota d’água.

E agora, o lutador segurava o colarinho dele, o braço livre implorando pra dar o segundo soco.

Quando se entra numa briga, descobrem-se verdades sobre si mesmo. Verdades que a maioria das pessoas tem medo de descobrir. Sou um dos fortes? Sou um dos fracos? O medo de descobrir uma verdade que não irão gostar é a real razão do medo de uma briga. Desconversam insultos com sorrisinhos sem graça antes de mudarem de assunto, tomam decisões erradas e comprometem seus próprios princípios para obter a aprovação daqueles ao redor. Envergonham a si próprios. Por medo de descobrir se fazem parte dos fortes. Ou se fazem parte dos fracos.

Lutadores são um grupo de pessoas que não tem medo de descobrir essa verdade. Não temem descobrir se são fracos ou fortes, porque é a adrenalina dessa descoberta que os alimenta. Mas há outros que não temem essa verdade, um número de indivíduos desatrelados de certos conceitos fundamentais na vida em sociedade. Miguel era um desses indivíduos, pertencentes ao seleto grupo das pessoas que saem à noite, com o único intuito de obter uma oportunidade pra direcionar uma raiva profunda sobre alguém e deixa-la fluir. Essa noite havia chegado.

Miguel agarrou o braço que puxava sua camisa, virou a outra mão na horizontal e arremeteu a parte debaixo dela contra a garganta do lutador. Todos os treinos não puderam salvá-lo da dor paralisante que um golpe forte na garganta traz. Miguel agilmente chutou a perna de apoio do homem. forçando-o de joelhos, enquanto este agarrava a própria garganta com as mãos tentando conter a dor. Miguel recuou um passo, tomando distância apenas o suficiente para o chute fazer efeito. Em uma sucessão de milésimos de segundo ele disparou a perna direita à frente, impulsionando-a com um giro do quadril, acertando a testa do lutador com a parte mais grossa da tíbia, logo antes do calcanhar. O chute teve efeito devastador e uma testemunha com predisposição para o dramático poderia dizer que tinha visto o golpe de um machado. O impacto jogou o lutador ajoelhado no chão de vez, e lá ele ficou. Infelizmente, alguém com aquela personalidade “agradável” necessitaria de companhia para ter a coragem que precisava para aqueles comentários ignorantes. Havia com ele, dois colegas de quarto com quem morava. Com quem treinava. Todos lutadores.

O primeiro amigo avançou diretamente contra Miguel, agarrando-lhe a cintura, colidindo a base do abdômen de Miguel contra seu ombro musculoso e jogando-o com força no balcão do bar. Antes de conseguir derrubá-lo, Miguel esticou a mão por sobre balcão e apanhou o primeiro objeto que pôde, atirando contra a cabeça do homem. Por azar do proprietário, aquele era um cinzeiro de vidro feito à mão com detalhes de roseira na lateral, presente antigo de inauguração do bar. O cinzeiro se estilhaçou contra o crânio do lutador e o impacto atirou o lutador no limite da consciência. Atordoado, ele mal compreendeu as mãos que agarraram sua nuca e muito menos pôde se defender da joelhada no nariz que veio em seguida. Logo que ergueu a cabeça para os outros amigos, Miguel recebeu um soco direto na têmpora. Agora ele é quem estava atordoado. Alguém agarrou seu cabelo e jogou sua cara contra o balcão do bar, uma dor surda no meio do rosto informou que o nariz agora sangrava. Puxaram sua cabeça de volta e presentearam-no com outro soco na boca, que o jogou para longe do balcão, atirado por sobre uma das mesas. Infelizmente, a mesa não estava vazia. Miguel recuperou noção da realidade só quando já estava caído por cima de um pobre idoso que havia visto chegar mais cedo. Lembrou-se do velho por causa da belíssima boina de tweed que ele estava usando. Enquanto trilhava o caminho tortuoso a se pôr de pé, viu a bela boina estirada no chão. Nela havia um rasgo selvagem de aparência irrecuperável.

Um ponto sem retorno foi cruzado.

O lutador restante estava dando atenção a seus dois amigos desacordados. Mal pôde ver a cadeira chegando. Estapeando-os de volta a consciência, ele recebeu a cadeirada diretamente na cabeça. A cadeira explodiu durante a colisão, mas as duas pernas que segurava, permaneceram nas mãos de Miguel. Antes de qualquer reação do último lutador, atirou ambas as pernas contra o rosto dele e soltou um chute frontal em direção ao seu peito. O chute teve eficiência máxima quando o lutador cobriu o rosto com as mãos para se proteger das lascas, recebendo o golpe diretamente e sendo jogado com força contra o balcão do bar. Sem lhe dar espaço, Miguel encaixou um gancho na boca do estômago do lutador, que se curvou de dor. Miguel o jogou de volta pra cima com um uppercut bem embaixo do queixo, e sem dar espaço pra reação, finalizou com um gancho poderoso no meio do rosto. O lutador capotou por cima do balcão do bar.

Os parcos clientes do bar olhavam o último homem de pé no fim daquele entretenimento juvenil, arfando pesadamente. Observava o resultado daquele pequeno momento de lazer: quatro brutos metidos à besta, beijando o chão e um único dano colateral. O senhor da boina já havia se levantado e conseguido um novo drinque por cortesia. Talvez não tivesse sido assim tão ruim. O senhor segurava a boina em mãos, com um olhar entristecido contemplando sua companheira, agora arruinada. Talvez tivesse sido ruim, sim. Calmamente, Miguel retornou ao banco que ocupava desde o momento que entrara no recinto, algumas horas atrás e continuou tomando sua bebida. Uma garrafa d’água. Sem gás.

Alguns minutos depois, ouviu-se uma sirene. Alguém chamou a polícia, depois uma ambulância, e por alguma razão, os bombeiros. O barman fechou o bar, todos os clientes apagaram os cigarros e foram embora. Esconderam o caça-níquel, apagaram o letreiro “Aberto” de LED. Desligaram o fliperama. Policias conseguiram pegar alguns dos clientes na saída, parando-os para questionamentos. Os socorristas carregaram os quatro inconscientes para a ambulância. Os bombeiros ficaram cinco minutos praticamente sem fazer nada antes de decidirem ir embora.

Do outro lado da rua, um homem de sapatos pretos lustrosos atirou uma garrafa de plástico no lixo. Errou por uma distância suficiente para se envergonhar. Caminhou até a garrafa, recolheu-a e atirou dentro do latão de lixo. Depois chutou o latão, derrubando-o. Um dos policiais olhou na direção do barulho e essa foi a deixa que Miguel esperava para ir embora.

- Completamente desnecessário. – disse uma profunda voz de mulher. Ele parou e notou a cantora do bar, recostada num dos prédios daquele lado da rua.

- Me processa. – respondeu e começou a se afastar. – Se não houvesse um pouco de lixo na rua, os lixeiros acabariam perdendo o emprego.

- Uau... Essa provavelmente é a justificativa mais ridícula que já vi para mira ruim. – Débora disse. Ele parou de andar e se virou.

- Você não devia estar falando com os guardinhas agora, sobre como esse tomara-que-caia acabou de presentear três ingressos de primeira classe para o hospital mais próximo?

- Já contei: típica briga de bêbados, acontece quase toda a noite. Agora eu tenho resto da noite livre. E eu não lembro de ver o meu vestido batendo em três caras com um sorriso no rosto. – Ela era bonita. Sua boca fina era pura sensualidade quando crispava os lábios em desdém.

- Poxa, não vou receber nem um pouco de gratidão por ter salvado a donzela em perigo? – continuou ele, com um sorriso de sarcasmo despontando no canto direito da boca.

- Me mostre uma que talvez eu possa convencê-la a te dar alguma. – disparou ela.

- Fácil falar isso agora que aquele imbecil está a meio caminho do Hospital São Judas Tadeu de longe pra cacete. Não acho que aquele cara não lida bem com o tipo de ofensa que você soltou. – ele estava começando a se animar.

- Eu não me importo com o que ele aceita bem ou não. E não se ponha em tão alta conta, afinal você se intrometeu onde não foi chamado. – disse ela, cruzando os braços.

- Se eu não tivesse me intrometido, você nem teria visto o primeiro tapa chegar, estando tão entretida com o instagram de outra pessoa. Mas não, claro, tenho certeza  que essas pernas teriam dado conta do recado. Teriam feito um belo estrago naquele imbecil. – rebateu ele, lançando lhe um olhar de cima à baixo, nada educado.

- Você não tem ideia do estrago que essas pernas conseguem fazer em idiotas – disse Débora, impedindo que ele chegasse mais perto, parando a mão contra o seu peito.

- Então porque você não me mostra? – disse ele, gentilmente segurando a mão que ela mantinha em seu peito, olhando-a nos olhos. Ela pôde ver um carinho honesto ali, profundo. E que por isso, não era dela para receber.

Débora libertou-se gentilmente da mão dele, acariciando seu peito enquanto levava a mão ao rosto de Miguel. Puxou-o para perto, sentindo a respiração dele em sua bochecha. Roçou seus lábios rosados no ouvido de Miguel e num sussurro transbordando de sensualidade, disse:

- Você não me aguentaria, querido... – deixando-o estonteado, Debora virou-se e foi embora.

- Você acabou de dizer que tinha a noite livre. – gritou Miguel,  enquanto a observava se afastar.

- É, eu menti. – disse ela, sem olhar para trás. Jogou uma mão para cima, com o dedo do meio erguido – Me processa.

Algumas mulheres têm certo dom para atrair a atenção dos homens quando saem do recinto. Algo na forma com que movem os quadris enquanto andam. Débora era uma dessas mulheres.

Ele ficou ali parado por algum tempo, admirando o corpo dentro daquele belo vestido. Deu as costas ao que aquela noite poderia ter sido e começou o longo caminho pra casa.  Mas assim que deu o primeiro passo, uma mulher estava parada na sua frente, observando-o imóvel. Era Charlotte.

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"Sasha Noir" by psychiatrique
Durante horas sem fim ele sofreu com a dolorosa transformação do carinho que nutria por aquela mulher na raiva voraz que carregava hoje. Havia fantasiado inúmeras vezes com as palavras frias que iria lhe dizer. Com os insultos incandescentes que iria lhe gritar. Mas tendo-a finalmente na sua frente, se viu tomado por preocupação.

Ela havia sido espancada. Seu rosto era uma sombra da beleza que teve um dia. Um dos olhos fechado pelo inchaço, uma palidez mórbida assumiu sua pele clara antes tão bonita, agora suja e coberta de hematomas. Pela postura, percebia-se que ossos foram quebrados. Sua respiração irregular adicionava algumas costelas à essa conta. A cascata de lindos cabelos ruivos estava completamente enlameada sobre o rosto, alguns fios grudados sobre manchas de sangue. 

Estava quase irreconhecível, exceto pela jaqueta. Uma jaqueta de couro vermelho para motoqueiros que ele mesmo havia comprado para ela, sem nunca tê-la visto pilotar. Quando percebeu a jaqueta pela vitrine de uma loja, imediatamente pensou nela. Ela também tinha adorado a peça, como fez questão de demonstrar recompensando-o vigorosamente durante uma tarde inteira sem sair do quarto, entrando noite adentro e segurando-o ainda numa parte da manhã seguinte. Estava estampada com estragos recentes, mas a jaqueta em si parecia ser a mesma que ele havia comprado anos atrás.

Ela começou a sorrir, tocando os lábios com os dedos, do jeito que sempre fazia depois de um beijo. Era um sorriso triste, o mais triste que ele já vira. Destruiu toda a sua convicção, toda a hostilidade que ele havia preparado para soltar sobre ela. Miguel se aproximou, esticando uma das mãos para tocar o rosto dela. Nessa hora ressoou o som de um disparo. E Miguel teve marcado para sempre na sua memória, a cena daquela bela mulher levando um tiro no peito.

Alguém começou a gritar. A cabeça dela foi violentamente jogada para frente, os cabelos avolumados em tempestade com o ímpeto do disparo ao derrubar o corpo dela. Miguel correu pra ela, esticando os braços para agarrá-la com o desespero típico de reflexos apressados que queriam amparar a queda. Tinha as mãos quase em volta dela, prestes a sentir a leveza da pele de seus braços quando o corpo se desfez em fumaça. O corpo inteiro se desfragmentando em milhares de partículas de uma fumaça branca e fina, dissipada de imediato pela brisa da noite, não restando nada. Miguel ainda enxergava o pequeno ferimento de entrada, uma esfera vermelha minúscula que surgiu na pele do peito dela, bem acima do lugar onde ele colava o rosto para escutar o coração dela bater.

Ele se viu tateando o vazio, nada dela para se agarrar. Miguel se deixou cair no chão. Arrastou-se até a lateral de um prédio, tentando em vão se levantar, não conseguindo firmar as pernas de súbito enfraquecidas. Ficou largado ali, respirando com dificuldade, como se tivesse corrido em torno do planeta. Segurava a cabeça com ambas as mãos, arfando descontroladamente, sem entender. Olhava para o lugar onde ela havia estado, para o vazio presente ali. Não era possível. Aquilo não podia ter acontecido.

Mas aconteceu, ele sabia disso. Ela estava morta.

Olhou para os lados, lembrando-se da pessoa que havia gritado e por algum tempo se perguntou se esta não havia corrido com o som do disparo, se fora chamar socorro, se poderia ajuda-lo a entender o que tinha acontecido, se poderia dizer pra ele que estava louco. Porque a loucura era uma perspectiva mais atraente que a realidade em que ele estava sendo forçado a aceitar. Então percebeu a garganta seca e dolorida. Ele mesmo quem havia gritado.

Alguém a havia machucado, machucado muito. E então tirado sua vida. O som do disparo ainda ecoava na sua mente. Ele não conseguia segurar mais. Toda a dúvida e a raiva que ele nutria por ela, tudo aquilo pelo qual ela o fez passar depois de ter entrado na sua vida. Ele não se permitiu de início, mas com ela era impossível não se envolver. Ela assumiu grande parte da vida dele, sem esforço algum, somente sendo ela mesma. Todo o charme, todo o carinho, tudo o que ele queria para si. Tudo o que queria para sempre. Então, ela desapareceu. Sem avisar, sem se explicar, sem nenhuma palavra. Aquela indiferença impediu que mesmo por um segundo ele houvesse chorado. Embotado pela raiva, se recusou a verter uma única lágrima por aquela mulher que o abandonou. Tudo o que haviam vivido juntos pareceu não ter importância alguma. Pareceu não possuir nenhum valor. E ele a odiou por isso. Mas nunca chorou.

Imaginava-a sempre viajando, se divertindo pelo mundo. A história deles sido apenas uma página qualquer no livro de aventuras que era a vida daquela mulher. Mas ele descobriu que não havia sido assim. Ela pensava nele. A jaqueta, aquele sorriso, o toque nos lábios. Miguel enxergou naqueles poucos segundos que Charlotte estava pensando nele. Que ela estava sempre pensando nele, como ele mesmo contra a vontade estava sempre pensando nela. Veio a sua mente o dia em que ela lhe disse que seu beijo tinha um gosto diferente, um sabor de noite. Lembrava disso como se tivesse acontecido ontem. Lembrava de tudo sobre ela. Mas agora ela o havia abandonado. De novo, e para sempre.



E então caído na calçada suja de uma cidade imunda, Miguel verteu uma lágrima. Seguida de tantas outras que à tantos anos tentava esconder.

Por Roberto Marcos

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