23 de abril de 2015

Ao Cair da Noite: Capítulo III


Passaram-se três meses. E nada. De início, ele procurou nos lugares óbvios. Revistas, jornais, internet. Nada. Depois especificou as buscas, um pouco mais de trabalho, no entanto, maiores chances de resultado. Obituários, tragédias, crimes violentos, pessoas desaparecidas. Nada. Então, considerou a possibilidade de não estar encontrando nada porque alguém queria que ele não encontrasse nada. Chegou a uma possível solução para isso também.

Discou o número de seu antigo colega de turma no Instituto, o que havia passado no concurso da Polícia Federal. Iria cobrar um favor, algo relacionado ao incidente envolvendo a sala de mapas, um professor de cartografia e escapadas do dormitório no meio da noite. Obviamente, ele foi recebido com uma calorosa sequência de xingamentos por uma língua treinada na eloquência da enrolação. Explicou a situação para o ex-colega e ele respondeu com um grunhido ligeiramente semelhante ao som de “Vou ver o que posso fazer”, antes de bater o telefone na cara de Miguel. 

Mesmo sem contato direto, Miguel conseguiu rastrear o desenrolar da vida do ex-colega, atual integrante das forças de segurança pública nacionais. Foram necessários alguns telefonemas mas conseguiu descobrir que ele passava a semana vivendo às custas da receita federal e os fins de semana, à base de drogas e depravação, custeados pelos cartéis do narcotráfico. Sejamos honestos, é necessária verdadeira maestria pra manter um equilíbrio desses. Aquele cara era um degenerado imbecil, mas também um verdadeiro artista.

Quatro dias depois, o artista retornou a ligação. “Nem a nossa agência, nem qualquer outra na América do Sul estão sabendo de nada sobre a surra que deram na sua namorada ruiva ou qualquer outra nos últimos tempos”. Agora foi a vez de Miguel bater o telefone na cara dele. Talvez pudesse ter assegurado que manteria o segredo da sala de mapas bem guardado, mas isso seria uma mentira. Afinal, quem tinha começado os boatos em primeiro lugar?

Estava realmente difícil de continuar. Ele parecia procurar a esmo por uma verdade que nunca existiu. Havia testemunhado a morte dela. Ou pelo menos era nisso que acreditava. Tinha acontecido bem na sua frente. O sentimento que o invadiu foi real, o sentimento de perda foi real. Ele o sentia engolfando seu peito agora, um aperto imaginário em torno do coração, sempre presente. Incansável, indiscutível, inescapável . Nada parecia contribuir para um fim. Estava sozinho e descrente, sofrendo na loucura de se convencer que não era real o pesadelo que revivia noite após noite.

Sempre o mesmo tormento. Charlotte, seu sorriso. Então outros detalhes começaram a aflorar. Primeiro, a noite. Depois, a chuva. E então, a surra. Podia ver apenas clarões, flashes onde ela era violentamente atirada contra paredes de metal, arrastada pelo chão, golpeada no rosto, no corpo. E sempre terminava com o disparo. O eco do tiro acordava-o como se disparado dentro da sua mente, arrancava-o do sono inquieto para um despertar agitado, desesperado, os primeiros segundos de confusão onde a realidade cinzenta ainda não sobrepôs-se ao pânico. Só então vinham a perspectiva. Ele não podia mais continuar vivendo assim.

A resposta natural à morte de uma pessoa querida é o luto. A projeção interior da triste realidade de que não haverá novas memórias com aquele que se foi. Uma saudade paralisante que alcança todos, sem recriminação de gênero, cor ou idade. É cruel pensar como o que realmente traz perspectiva à vida, é a morte. E independente da religião, a mesma dúvida acomete a todos. Miguel tinha de conviver com essa dúvida, a possibilidade agonizante de que jamais fosse vê-la de novo. Uma aflição intensa, sem um único momento de paz. Sobrou apenas o vazio que ela deixou. Agora ele podia ver que mesmo ela tendo ido embora, na verdade, sempre esteve ali ao seu lado, nas memórias reprimidas que sempre vinham à tona. Mas agora, não. Era o fim e lhe restava somente o luto.

Miguel levantou-se da cama e foi até o baú que usava de armário do outro lado da quitinete. Expulsou as roupas de dentro e tirou uma pequena caixa de madeira. Abriu-a, pôs seu conteúdo no chão e guardou-a novamente, jogando as roupas por cima e fechando o baú. Aos seus pés estavam uma faca tática de combate com lâmina preta e uma pistola Colt 1911 STI Perfect 10. Parte de suas memórias durante a breve estadia no Instituto Militar Brasileiro.

Se o perguntarem, ele não sabe dizer bem porque optou por uma carreira militar. Todo o autoritarismo, obediência cega, o repúdio ao questionamento. Miguel basicamente era incapaz de aceitar as idéias do militarismo. Durante o primeiro ano inteiro, ele entrou e saiu de inúmeras brigas e discussões com colegas de dormitório, colegas de turma, oficiais de supervisão, comandantes de exercício, até mesmo um embate completamente ilógico com dois cozinheiros sobre a carne naturalmente ter gosto de merda ou se pegava o sabor quando eles começavam a preparar ela. As aulas fluíam em flashes de tédio, mediocridade e desatenção. Seus únicos interesses eram os treinos de combate corpo-a-corpo e práticas com armas de fogo, onde alocou grande porção do seu tempo e atenção. No entanto, em um de seus desentendimentos, aparentemente com um moleque de nariz empinado qualquer, Miguel decidiu lançar o primeiro soco ele mesmo e com o garoto caído no chão, acertou um chute com o bico da botina direto na boca do rapaz. Ele quebrou a mandíbula do rapaz. Ele quebrou a mandíbula do filho de um general.

Duas semanas depois, uma batida aleatória invadiu o dormitório de Miguel. Dois soldados grosseiros, a mando de um sargento muito satisfeito, puxaram-no pra fora de seu catre, rasgaram o colchão à facadas e retiraram um embrulho retangular. O pacote continha 1kg de cocaína. Algemaram-no como um animal, arrastando-o pelo chão na frente dos companheiros. Seu colchão foi o único revistado durante a batida.

Miguel passou os seis meses seguintes mofando na cadeia da base até o levarem a julgamento. Durante três horas, Miguel ouviu em silêncio às baboseiras burocráticas e mentiras escandalosas acerca da grandiosidade do exército brasileiro. A maioria da população tem uma crença incorreta sobre as forças armadas do país. Devido à herança histórica, muitos nutrem certo ódio pelas ações dos militares durante a ditadura, enquanto outros mais conservadores acreditam que eles sejam a solução para as crises econômicas e sociais da atualidade. A verdade é que poucas pessoas realmente conhecem os militares, pouquíssimos sabem que oficiais, como os do exército, são exemplos de pessoas normais como todas as outras: arrogantes, egocêntricos e corruptos.

Miguel foi expulso do Instituto em desgraça, inapto a servir nas forças armadas por desvios de caráter incorrigíveis. Enquanto retornava ao dormitório para recolher seus pertences, pôde ver um dos carros de oficiais estacionado próximo ao edifício central da base. Era pouco usual avistar aqueles veículos circulando no interior da base. Geralmente eram privilégios de tenentes, capitães, majores. E generais. Quase havia esquecido.

Antes de deixar o Instituto, Miguel decidiu que precisava tomar uma última péssima decisão. Foi até o edifício de comando, passando por um cabo preguiçoso e um tenente mal-humorado antes de encontrar o escritório que procurava. A secretária desavisada foi convencida sem problemas, Miguel usou o pretexto de ter sido convocado pelo general para um último apelo. A secretaria sabia quem ele era e conhecendo bem o general, acreditou que o jovem estaria ali para aguardar a desforra do seu chefe na sala de espera. Miguel perguntou pelo banheiro e seguiu na direção do corredor a qual ela apontou. Passou por duas portas até surgir a que tinha uma placa de toalete. E então passou por ela também. Seu objetivo estava na parede ao lado, uma caixa vermelha e branca com uma alça. Miguel puxou a alça.

O alarme de incêndio soou e ouviu-se a correria de passos apressados deixando o prédio. Miguel voltou pelo corredor, encontrando a mesa da secretária vazia ao fim dele. Foi até a entrada do escritório do general. Tratou a porta de madeira ornamentada sem qualquer misericórdia ao arromba-la com uma pisada. Tendo entrado no escritório, foi direto até a estante vidrada detrás da mesa, onde descansavam os maiores troféus de seu proprietário. No centro da estante, havia uma caixa aberta contendo uma bela pistola, provavelmente presenteada por alguém muito mais importante que ele. Quebrou o vidro, tendo mais prazer nisso do que esperava, pegou a arma e saiu. Saiu daquele escritório, daquele edifício, daquele instituto, passando pelo arco de entrada da base, para finalmente deixar aquele lugar. Levava na mochila uma Colt 1911 XTI Perfect 10 que agora lhe pertencia.


Miguel recolheu a Colt do chão aos pés do baú. Pressionou um botão na lateral, liberando o pente de balas. Checou a munição, recolocou o pente e guardou a pistola detrás da calça. Prendeu a lâmina da faca na bainha do tornozelo, escondida sob o jeans. Foi até a porta do pequeno aposento patético, girou a maçaneta e saiu.

Todas as opções lógicas haviam se esgotado. Ele não conseguia encontrar provas da morte de Charlotte, não além dos novos detalhes que assombravam suas noites. Nenhuma evidência física. E mesmo que encontrasse, ele não tinha ideia do que faria com elas. Ele estava desesperado. Mas precisava saber. E assim, tornavam-se cada vez mais aceitáveis medidas facilmente descritas como desesperadas. Esse desespero o levou a subir aqueles degraus, parar naquela porta e tocar a campainha. Acima da entrada, uma placa de madeira com os dizeres “Madame Mística” o recebia. A placa combinava com o casarão estilo vitoriana que ele visitava, mas a casa em si destacava-se violentamente de todas as outras naquela rua do Humaitá.

Ele lutava para conter o ceticismo. Não queria deixar transparecer a própria descrença. Mas era impossível.

Alguns meses atrás, o prédio onde ele estava morando, foi palco de uma tragédia. Um homem do quarto andar se suicidou dentro do próprio apartamento. Ignorando a perspectiva de um salto, o morador mutilou o próprio pescoço com uma faca de pão. Mas o pior foi que sua esposa estava a entrar em casa no exato momento que ele arremetia a lâmina dentada na garganta e começava a serrar. Antes de entrar num estado de choque catatônico, a esposa afirmou à polícia, durante os interrogatórios subsequentes, que havia visto uma mulher nos seus 40 e poucos anos, vestindo um véu preto sobre o rosto, de pé a observar o homem tirar a própria vida com toda aquela brutalidade animalesca. Os policiais não encontraram indícios de nenhuma outra pessoa no apartamento. A esposa continuou a insistir sobre a mulher, mas o que garantiu as suas atuais acomodações em um instituto de saúde mental foi o que disse em seguida. A esposa afirmou que ao chegar, a mulher de véu a viu na entrada e imediatamente se desfez em fumaça. Uma fumaça branca.

Um homem negro atendeu a porta. Ele se apresentou como Henrique, mas Miguel não ouviu uma palavra. Assim que a porta se abriu, um turbilhão de fragrâncias impactou o seu rosto, roubando sua atenção de qualquer coisa. Era uma miscelânea intensa de aromas beirando o poluente, um choque no sistema nervoso que mal permitia raciocinar. Poucos segundos depois se viu sentado à uma pequena mesa circular num aposento estranho . Tecidos das mais variadas cores cobriam as paredes criando um ambiente etéreo, se combinado à meia-iluminação e os sempre presentes aromas extasiantes. O homem aparentemente sem nome que o guiou deixou o cômodo passando por uma saída escondida, deixando Miguel sozinho no aposento. Ele não tinha ideia de como havia chegado naquele lugar

Do outro lado da sala, um novo farfalhar de tecidos ilustrou a entrada teatral de uma mulher. Cabelos negros longos caiam por sobre ambos os lados de seu busto avantajado. Um azul reluzente emanava do vestido justo a delinear sensualmente sua silhueta carnuda. O observador inocente poderia chamá-la de gorda, dizer que seu corpo já fora esbelto nos vinte e poucos anos, o seu auge. Mas aquele corpo curvilíneo de agora, roliço e hipnotizante, atraía mais olhares do que nunca antes. E tal qual agora, era simplesmente impossível ignorar a voluptuosa dama fatal que adentrava o recinto. Ela abraçava uma echarpe translúcida por cima dos ombros e uma fenda lateral permitia vislumbres das coxas grossas e acobreadas. Com passos ágeis e fluidos, se sentou com leveza à frente de um Miguel completamente entorpecido pelo ambiente. Ela levantou o véu preto que cobria seu rosto e numa voz sibilante de lascívia, sussurrou:

- Bem vindo, querido.

Três palavras. Foi preciso apenas três palavras. A decoração da casa, os odores, aromas intensos, tudo era parte da encenação, do ilusionismo. O marketing do misticismo. E outra vez, ele tentava silenciar os gritos em sua mente, de que aquilo era autêntico. Só que não podia ser. Era apenas simples charlatanismo.

Exceto, por ela. Aquelas três palavras iniciaram uma cadeia de impulsos elétricos que percorreu o seu sistema nervoso, abalando toda a constituição do seu corpo. Miguel teve os batimentos acelerados, a transpiração intensificada, as pupilas dilatadas e um acréscimo no fluxo de sangue que corria por entre as pernas. Em resumo, com três palavras, ele se viu em uma devassidão incontrolável por aquela mulher.

Ela o encarava com um leve sorriso no rosto. Aquilo a excitava, mais do que qualquer coisa. Um prazer que nenhum homem ou mulher jamais poderia lhe prover. O total controle, através do desejo. Milhares já haviam caído perante seu olhar, lutando contra a necessidade desesperadora de obter sua estima, obter seu corpo, a recompensa divina. Uma recompensa a qual nenhum jamais seria merecedor.

Ele não conseguia desanuviar a mente. Sentia-se lento, reflexos dormentes. Vulnerável. A malícia por detrás daqueles olhos indo além da luxúria. Satisfação. Ela sabia que ele estava em suas mãos. Miguel estava incapacitado por aquela sensação. Uma necessidade implacável de tocá-la, acaricia-la. Uma idolatria que jamais havia se dado conta de que sentia. Até aquele momento. Um amor como nenhum outro.

Então, ele entendeu.

Por toda a sua vida, apenas uma única pessoa havia gerado uma onda de carinho e desejo ligeiramente semelhante. Mas mesmo com ela tinha sido diferente. Era algo sólido, estável, como um rio a correr. De início também havia sido vigoroso, mas quando tornou-se cada vez mais forte, não foi por desejo, mas pela crescente admiração que passou a sentir. Madame Mística era uma queda d'água, um turbilhão súbito e furioso de emoções. Sentia inquietação, uma preocupação de que talvez não fosse o suficiente para aquela mulher estonteante. Ele nunca sentiu isso com Charlotte. Com ela, a única incerteza que tinha era o quão merecedor ele podia ser, quão digno podia ser de todo daquele contentamento, mas apenas um sorriso dela conseguia afastar todas as dúvidas, convidando-o a se perder naquele paraíso. Suas lembranças eram a prova viva de que aquilo que ele conhecia por amor era na verdade, o último grau da serenidade.

E assim que soube, Madame Mística não teve mais influência sobre ele.

Miguel se levantou tempestuoso, atirando a mesa para o lado num rugido de raiva. Agarrou o pescoço dela e pressionou o bocal da pistola contra seu olho direito fechado, enquanto o esquerdo o espiava numa súplica de horror e descrença.

- O quê... O quê você quer...?

- Respostas.

- Que respostas...?

- Respostas que sei que você tem. Te darei uma chance para não mentir. Uma.

- Mas eu não...! Como assim!? O que você quer de mim?

- A fumaça branca

O olho aberto dela se arregalou. Miguel ia continuar mas nessa hora, o homem que o atendeu na porta invadiu a sala num urro, atirando Miguel longe com um encontrão. A pistola voou de sua mão. Ainda no chão, Miguel se apoiou com uma mão e soltou um chute lateral no rosto do assistente que tentava se levantar. Miguel se pôs de pé num salto, agarrou a nuca do homem ainda caído e empurrou seu rosto no chão com força.

O crânio do ser humano é uma armadura, a última linha de defesa do cérebro. Essa caixa óssea se desenvolve com densidades diferentemente estratégicas. Um exemplo é a testa, onde o crânio tem sua maior espessura, protegendo-se da maior quantidade de ataques, em sua maioria frontais. No entanto, essa lógica pode ser aplicada ao contrário. Assim, Miguel fechou o punho e o desceu como um martelo na parte traseira da cabeça do homem, onde se encontrava a menor espessura do crânio. Primeiro, um espasmo, depois a imobilidade.

A sedutora mulher estava caída a um canto, paralisada de medo. Miguel foi até onde a pistola estava jogada e a pegou. Pela primeira vez, engatilhou um projétil no cano da arma. Estava carregada. Letal. Foi até a mulher, agarrou sua cabeleira volumosa sem qualquer cerimônia e puxou para trás, expondo o queixo. Apontou a pistola para o pescoço dela.

- Mê dê alguma coisa ou vou deixar que se afogue no próprio sangue. - disse, num sussurro gélido. E honesto.

- Você não quer saber da fumaça branca. Quer saber quem a matou. – ela respondeu. E ele não pôde esconder sua incredulidade. Ou seu desespero.

- QUEM!? ME DIGA!

Os olhos da mulher, antes temeroso, o encaravam com frieza. Todo o seu medo pareceu desaparecer. Ela observava Miguel, irredutível. Então, quase que conscientemente, seu olhos giraram nas órbitas. Ela abriu a boca, grunhindo sons estranhos, articulando a garganta e gemendo, como se tentando expelir algo de dentro dela. Os espasmos tornaram-se violentíssimos, arrancando os cabelos dela da mão de Miguel. Ele se afastou da mulher, assumindo uma posição de combate, pernas flexionadas e ambas as mãos segurando a pistola. Pronto para o que quer que viesse. Então a mulher parou, imóvel. Lentamente, levantou-se do chão e olhou diretamente para ele. As pupilas desaparecidas. Órbitas em neve branca. A alvura das córneas fustigava Miguel diretamente em seus olhos negros e amedrontados, porém estáticos. Por nada, ele desviaria o olhar.

- O homem que você procura está nesta cidade. Ele é um caçador. Um caçador da Lua. Ele não medirá esforços para banhar-se com o luar, regozijar-se com o presente. Um presente amaldiçoado. O eterno agora. – começou ela, sua voz perdendo toda a sensualidade, assumindo uma seriedade indiferente.

- ONDE POSSO ACHÁ-LO?

- No dia após o amanhã, ele caminhará em degraus de escuridão negligente. Sob o olhar de uma parede feita de risos. Próximo a um altar em homenagem ao  genocídio, o assassino erguendo-se sobre suas vítimas. Uma homenagem às vidas da terra tiradas pelos fogo e trovão da caluniosa cobiça...

Então desmaiou. Seu corpo lentamente perdeu a vitalidade, escorrendo para o chão. Miguel a observava em descrença. Nada daquilo fazia sentido. O que aconteceu com a mulher? Aquilo pareceu... Mas não podia. Não fazia o menor sentido. Mas também não importava. Achou o que havia vindo procurar. Entre nada e aquele filete de mistério, decidiu agarrar o fio e ver onde ele ia dar. Guardou a pistola, saindo do ambiente místico ajeitando a blusa para escondê-la. Entrou num corredor que não se lembrava de ter cruzada antes e o seguiu passando por várias portas antes de chegar a um hall bem iluminado. Saiu pela porta da frente e era noite. Sentiu que havia subido os mesmos degraus que agora descia apenas alguns minutos atrás, quando aparentemente horas haviam se passado.

Enquanto cruzava a rua, deixando aquele lugar e seus mistérios para trás, uma figura o observava pela janela.

- O que pretende fazer com este homem, Madame? - grunhiu Henrique, com o rosto ensanguentando ao seu lado.

- Por enquanto nada, querido. Por enquanto, nada. - respondeu a proprietária da casa.

Ele era um homem interessante demais para matar. O rapaz havia quebrado seu transe, superado a indução sonora e os aromatizantes. Aquela arma de fogo não era a maior ameaça, foi sua imunidade que a assustou. Nenhum homem mortal jamais havia quebrado seu encanto e disso ela se orgulhava. A ousadia daquele rapaz era louvável. Ele havia conseguido forçá-la ao estado profético. Sua ameaça fora tão vivaz, tão honesta, que ela própria não pôde deter o tremor que subiu pela sua espinha. Ele não compreendeu o que se sucedeu naquele quarto, mas ela sim.

Madame Mística podia ver além dos limites do tempo. Um pequeno relance de cada vez, mas o suficiente para se precaver. Para burlar a inescapabalidade daquilo que os mortais haviam chamado de Destino. Mas mesmo em suas visões, não conseguiu ver aquele homem se aproximar. Estiveram frente a frente mas ainda assim não conseguiu enxergar nem mesmo a mais tênue amostra de energia que deveria estar emanando de sua alma. Mas será que havia mesmo alguma? Não. Tinha que haver. Ela não podia duvidar disso, mas... E se não houvesse? Com toda sua sabedoria obtida em séculos de vida, ela jamais havia se deparado com uma coisa assim. Não, aquele homem era um mistério, diferente de qualquer outro que ela já vira, em nada semelhante com os mistérios que ela guardava dentre as paredes daquela casa. Nem mesmo ela conseguia ser um mistério tão esplêndido quanto aquele homem.

Madame Mística era uma bruxa. Mas aquele rapaz, por Deus, o que ele era?


 Por Roberto Marcos

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