20 de novembro de 2015

007 contra Spectre: com o James Bond sempre, sempre vai rolar.

ATENÇÃO. O TEXTO A SEGUIR CONTÉM ALGUNS SPOILERS 
DO FILME 007 CONTRA SPECTRE

Terça-feira. 10 de novembro de 2015. As escadarias do Kinoplex Nova América alongam-se indefinidamente enquanto a PeixeComSales Gangstacrew se vê imersa num conflito existencial de proporções épicas e consequências implacáveis: "Quanto você acha que eu peso?".

Tal qual o Bond de Connery, percebo o ardil que se apresenta diante de mim. Gabriel iniciou a discussão referenciando-se à resposta esdruxula  provida por um de nossos amigos à mesma pergunta a ele feita. Assim como o Bond de Brosnan, sorrio frente à catástrofe inevitável de uma resposta inadequada, não certa ou errada percebam, mas uma resposta "indesejada": se muito pouco, desmerecerá minha tentativa com a incongruência, mas caso exceda os limites.... Uma resposta inoportuna é arriscar-se com a morte.

Digo meu número, rolo os dados, encaro a morte com um sorriso. 

E assim como o Bond de Lazenby, fracasso miseravelmente. A sala do cinema escura aparece. Com a tradição moribunda dos trailers sendo cada vez mais negligenciada, não há nenhum vazio pré-filme. Nos adiantamos pela escuridão das escadarias com borda de LED procurando pelos lugares, falando naquele tom de voz que parece baixo mas todo mundo escuta, ingressos em mãos e olhos apertados, desejando enxergar como morcegos. Os lugares são encontrados. Quatro pessoas, quatros assentos. Temos 24 combinações. Há um casal. Agora são 6 combinações. Sentamos. 

Senhoras e senhores, bem-vindos à 007 contra Spectre.



O filme inicia com a cena enigmática que figura um dos trailers do filme, o festival do Dia de Los Muertos na Cidade do México. Um homem ("Ele é muito baixinho") caminha de braços dados com uma bela mulher latina, ambos fantasiados com trajes homenageando aqueles que já não perduram nesse mundo, Ruas, escadas, elevador. Entram num quarto de hotel. A mulher despe-se de seus apetrechos cadavéricos, remove sua máscara e deita-se na cama. Ela apresenta ao público grandes olhos escuros, lábios vermelhos e cachos castanhos emoldurando um rosto estonteante de pele morena. Belíssima. Então escuto uma ligeira discussão não tão silenciosa ao meu lado:

- EEEEEEEEEH! OH, VAI ROLAR! *Movimento com as mãos alusivo ao ato sexual*
- Como assim "vai rolar"!? O filme começou agora.
- Idaí!? Ele é o James Bond! Com o James Bond sempre vai rolar.

Mas não rolou. A bela mexicana foi deixada a repousar no quarto de hotel enquanto Bond sai pela janela para começar o filme. Após 4 assassinatos e o "tombamento" de um provável patrimônio histórico, a perseguição ganha as ruas lotadas do festival. Daniel Craig em toda a sua compostura britânica caminha apressadamente empurrando qualquer transeunte da sua frente atrás de um amedrontado vilão/capanga mancando em desespero. Os mexicanos ao redor continuam em sua procissão, dirigindo-se a uma praça. O vilão mancante faz uma ligação. Um helicóptero surge. Craig para sua perseguição. Chegou a hora de Bondear essa Porra


Uma boa cena de ação se sucede. Um inocente piloto de helicóptero acordou naquele dia pensando ser apenas mais um dia normal de trabalho. No entanto, seu dia termina com vários "socos ingleses", uma ou duas cabeçadas no painel de controle do veículo e por fim, uma voadora de dois pés que o joga pra fora do seu próprio "escritório" em pleno ar. O chão da Cidade do México com certeza foi manchado com uma massa disforme e sanguinolenta que antes fora um homem crente que aquele seria apenas mais um dia de trabalho. La vida es una puta ironía.

E o tempo passa. Bond retorna à Londres pra um esporro padrão. O novo M, Lord Voldemort Ralph Fiennes desempenha bem seu papel de superior que disfarça o conhecimento de que suas palavras estão entrando por um ouvido britânico e saindo por outro. Terminada a sessão tapa-no-pé-da-orelha sob a ameaça de um futuro pescotapa-na-nuca caso o comportamento inconsequente permaneça, Craig evacua-se do cômodo mas não antes de encontrar-se com um nerd de terninho representando a "modernidade" dos serviços de inteligência. Esse nerd será o núcleo da subtrama que ocorre concomitantemente ao enredo empreendido por Bond e se unirá a esse no fim do filme, logo, não é muito importante por enquanto, só saiba que o nerd de terninho vai voltar. Saindo do prédio, Bond encontra-se também com Naomie Harris aka. Mrs. Moneypenny ("Esse nome é irado.") e sob algum pretexto pertinente convida-a para visitá-lo em seu apartamento mais tarde naquele dia.

- EEEEEEEEEEH! AGORA VAI ROLAR! NA CASA DELE AINDA! *Movimento com as mãos alusivo ao ato sexual*

Mas não rolou. Mrs. Moneypenny compareceu ao apartamento de Bond e realmente foi até lá pelo pretexto pertinente ao qual foi convidada. Primeiro plot twist do filme. A cena continua num diálogo entre os dois que constrói a motivação por trás da empreitada do filme e coloca Bond à caminho de Roma, Itália. 

Anteriormente, Bond havia dado um pulinho na base de operações clandestinas do MI6, no porão do prédio previamente explodido (o último andar apenas) em Skyfall, pra falar com Q. Retornando ao papel de Quartermaster está o ator Ben Winshaw e sem opção de expressão melhor para a situação profissional ao qual 007 o deixa nesse filme com seus pedidos, ele só chafurdou na merda. 

Primeiro, teve que inserir nanorrastreadores circulatórios no corpo ("Ele é tão baixinho, gente") de Bond, mas o dito cujo requisitou carinhosamente que sua posição não fosse esclarecida aos superiores pelas próximas 48h. Ou seja, "minta para o chefe, Q, namoralzinho".

Depois, Q experiencia o pequeno prazer cruel de apresentar o Bond-car do filme, Aston Martin DB10 à Craig apenas para informar que o veículo havia sido disponibilizado para o 009, não o 007. Voltando ao escritório na manhã seguinte, Q vê a porta entreaberta e adentra o recinto já com o mal-pressentimento resguardado apenas àqueles que trabalham com agentes de inteligência abusados e ladrões profissionais. Seu pressentimento provou-se verdadeiro. O Aston Martin havia sumido. 

Uma surpresa para ele e todos nós, na audiência, que aguardávamos justiça para o pobre 009. Após anos recebendo dinheiro para o táxi, finalmente seria provido de um veículo para trabalho. É, 009, acho que não foi dessa vez. 


Chegando na Itália, 007 mostra "pra quê veio" ao comparecer a um enterro que ele mesmo ocasionou. Isso é muita cara-de-pau. Mas nada como o que vai acontecer em seguida. Defronte ao túmulo, está Monica Belluci ("Nossa, ela ainda está linda, mesmo nessa idade") a viúva do assassinado. Bond aproxima-se dela e trocam algumas palavras antes que italianos de sobretudo apareçam em cena, indicando que é hora de ela voltar pra casa. Bond se despede de um deles com o aceno mais insolente do filme até então. Típico.

Em seguida, sucede-se a cena de chegada da viúva em casa. Ela adentra a villa italiana, apronta uma ópera no toca-discos e enquanto despe-se de suas jóias largando-as no chão, caminha pela casa abrindo todas as portas, chegando finalmente ao jardim, enquanto a música italiana dá a trilha sonora de toda a cena. Ela é seguida por dois italianos de sobretudo e pistolas-com-silenciador. Dois disparos são feitos. Dois atores coadjuvantes fazem por merecer seus cachês e rápidas aparições no mais recente filme do 007. Daniel Craig surge por detrás da mulher, armado, perigoso e com sede de sexo uísque. 

O casal entra na casa. Uma conversa se inicia. A conversa rapidamente se desenvolve em um tapa no rosto de Bond. Normal. O copo de uísque desaparece e eles estão encostados contra um espelho de corpo todo. Sussurram o roteiro numa proximidade íntima, lábios separados apenas pelo prazer do suspense, mãos entrando e saindo de cena fazendo o que devem fazer. Torna-se inevitável o comentário que sucede-se ao meu lado:

- AGORA vai ROLAR! *Movimento com as mãos alusivo ao ato sexual*

E rolou. Mas rolou, sério. Rolou sério, em cima do espelho. Porque com James Bond sempre, sempre vai rolar.

Durante a conversa pré-fornicação, dados importantes da trama foram informados e deixando satisfeita a sedutora italiana na cama (usando um corset preto que não parecia estar debaixo do vestido na cena anterior), Bond segue para o encontro clandestino da organização que intitula o filme. Gostaria de fazer um mero apontamento cronológico antes de prosseguir: Bond impediu o assassinato da mulher, irritou-a, seduziu-a, aguardou que vestisse o corset, saciou-a pelo menos duas vezes (porque convenhamos, quem quer lasciate che la donna, não é?), pegou o carro e foi pra reunião. É isso mesmo. Quem nasceu pra ser James Bond, nunca vai ser Steve Carell em Agente 86.

Continuando, temos a introdução do líder da organização Spectre e vilão do filme, Oberhauser. Uma figura aterrorizante em seu silêncio, imobilidade e na destreza em se posicionar precisamente de forma a jogar uma sombra profunda sobre próprio rosto. No entanto, durante o proceder do filme, Oberhauser encabeça a vilania do enredo mas não aparece tanto, sendo essa uma das críticas mais contundentes à 007 contra Spectre: as poucas aparições de um ótimo vilão interpretado por um excelente ator. Eu concordo com essa crítica, Christoph Waltz poderia ter aparecido um pouquinho mais.


Como não foi o agente direto da vilanagem do filme, Oberhauser recebeu auxílio de um terrível associado: Dave Bautista (de barba), chamado Mr. Hinx, o conhecido milenarmente "Brutamontes do Vilão". Bautista foi o principal obstáculo de Bond no filme, fosse perseguindo-o pelas ruas de Roma e obrigando-o a afogar o Aston Martin (o 009 não acreditou quando contaram pra ele, coitado) ou invertendo os papéis e sendo caçado por Bond numa inovadora perseguição avião-carro. No entanto, Bautista fez por merecer o papel de brutamontes na sequência de luta no trem do filme.

Bond e a Bondgirl principal, Léa Seydoux, que infelizmente não foi muito convincente no desenvolvimento da relação amorosa mas mesmo assim teve um ótima atuação, estavam jantando no vagão restaurante vazio do trem. Até que DO NADA, Bautista aparece no vagão e chuta a mesa em que o jantar havia sido posto por algum garçom fantasma. Mal os restos de comida tocaram o chão, Bond foi presenteado com os pistões de guindaste que Bautista chama de braços. Grogue pelos socos colossais, o 007 cai e Léa Seydoux ataca Bautista pra tentar impedi-lo de dizimar o agente britânico. Ela leva um só. Um tapão só. Na cara. Ela cai desmaiada, não morta. E isso já foi um feito.


A luta continua. Bautista devasta o vagão restaurante tentando assassinar Bond com os próprios punhos enquanto Bond sucede em escapar dos golpes, mas fracassa em retornar os seus próprios ("Gente, mas como pode!? Ele é muito baixinho"). Após percorrer três vagões, destruir uma cozinha e meio vagão de depósito, Bond e sua Bondgirl, num esforço conjunto e quase inacreditável, conseguem enganchar Bautista pelo pescoço e fazê-lo ser atirado para fora do trem em alta velocidade. No entanto, o ex-lutador da WWE interpretou tão bem seu papel que durante todo o resto do filme, eu aguardei por seu retorno incólume à telona, pois ele fez um brutamontes tão foda que até a queda do trem parecia "administrável".






O filme prossegue. Bond e Léa são levados ao encontro de Oberhauser em seu covil secreto no meio do  deserto de "Onde Judas perdeu as botas" no Marrocos. Corrupção, conspiração, infortúnio, superioridade numérica e filosófica, nocaute. O desenvolvimento de um filme de 007 procede normalmente até por fim, elevar-se a um clímax: Bond sentado num assento torturador e Oberhauser com um joystick na mão. 

O terror da terceirização da tortura. Até os interrogadores cruéis estão perdendo o emprego para a tecnologia. Que desumano.

Bond escapa. Vira a mesa (figurativamente), jogando (literalmente) todos no chão, agarra a mão de Léa, desarma facilmente um capanga amador aparentemente contratado no dia anterior (RH Spectre vacilou feio nessa hora) e corre para a saída. Armado de um rifle de assalto, o agente da inteligência britânica abate OITO seguranças fortemente armados, dois montados em quadriciclos e quatro a praticamente 25m de distância, com direito a pausa dramática antes do último tiro. O casal corre para o heliporto, antes guardado pelos seguranças, e após uma linha de diálogo, todo o complexo de Oberhauser explode numa bela sequência de dinheiro bem gasto em efeitos especiais práticos. 


Bond e Léa então retornam a Londres, pois ainda há um inimigo a ser vencido: a corrupção burocrática. Sequências de ação e espionagem sucedem-se, quando Bond, Léa, M, Q e outros mocinhos do MI6 fazem um último ataque ao plano de Oberhauser, unindo a trama principal da luta de Bond para derrubar a organização Spectre e a subtrama da tomada do MI6 por tecnologias de monitoramento que substituiriam o "programa 00". Enquanto M e Q lidam com o nerd de terninho, Bond vai atrás de Oberhauser que NÃO MORREU na obra-prima pirotécnica ocorrida no deserto. Ele coloca Bond numa situação impossível, de vida-ou-morte, que o agente supera magistralmente graças a exercícios cardiorrespiratórios de subir escada e uma cama elástica "coincidentemente" bem alocada. 

Em seguida, temos a MAIOR MENTIRA de toda a película.

Oberhauser foge em seu helicóptero. Um sorriso de crueldade marca seu rosto desfigurado enquanto deleita-se com a morte de Bond e sua "amada" (Quando foi que isso aconteceu...?). O que Oberhauser não percebe é que Bond e sua "amada" escaparam da morte certa e agora o estão perseguindo num barco em alta velocidade pelo rio Tâmisa. Bond saca uma pistola SIG 9mm tirada de algum capanga e dispara contra o helicóptero, que superando a velocidade do barco estica a distância entre os dois veículos e diminui cada vez mais a eficiência dos danos que poderiam estar sendo infligidos pelos disparos. As balas acabam. Bond atira a pistola na água em frustração. Seu semblante determinado encara o veículo em que seu nêmesis escapa, distanciando-se, fugindo do alcance de sua ira britânica. Ele saca a sua arma. A sua pistola. A sua Walther PPK/S calibre .22.


Aqui está uma pequena descrição da munição de calibre .22: "o cartucho .22 é utilizado para a prática da caça de pequenos animais, em competições de tiro de várias modalidades, em treinamentos e em momentos de lazer. Seus baixos estampido e recuo, além do preço reduzido, são algumas das razões que colaboram para que esse cartucho seja a melhor opção para iniciantes no tiro e tornam a mais vendida em todo o mundo." (fonte: Pau de Fogo: Armas e Munições). Agora que sabemos o que é uma munição calibre .22 creio estar certo de que compartilharão minha descrença ao concluir que James Bond DERRUBOU o helicóptero de Oberhauser com DISPAROS de uma pistola CALIBRE .22.

Então chegamos à cena final. James Bond de pé, Oberhauser caído. O Big Ben ao fundo. Olho no olho. Oberhauser diz "atire", Bond ergue a pistola. Ele tem uma licença para matar e o dedo no gatilho está coçando para fazer jus a ela. Ralph "M" Fiennes aparece em cena, mas meramente observa seu agente. Na outra extremidade da ponte, Léa Seydoux aparece (depois de estacionar o barco) e encara seu "amado" (De novo, quando isso aconteceu...?). James devolve seu olhar rapidamente e então volta a encarar Oberhauser. Aponta a Walther PPK/S para o rosto do vilão. Firma o punho para o disparo. E então...


...nada acontece. 

"Estou sem balas" responde James. Ele dá as costas à Oberhauser e vai de encontro a Léa. Seus olhares permanecem unidos mesmo enquanto Bond atira a Walther PPK/S (com cheat de dano pesado) no Tâmisa. Eles se encontram, entrelaçam as mãos e caminham em direção à noite e para longe de uma vida de espionagem, assassinatos e conspirações. Provavelmente para longe de Londres e da Grã-Bretanha. Provavelmente para um país tropical com praias de água límpida. Provavelmente para uma cama com lençóis de seda e travesseiros de pena de ganso que nunca ficará arrumada por muito tempo.

Porque com o James Bond sempre, sempre vai rolar.

Por Roberto Marcos

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